Quais foram os mais célebres desgostosos da vida que procuraram espontaneamente amorte? Não foram, porventura, os amigos mais próximos da sabedoria? Para não falar de Diógenes, Xenócrates, Catão, Cássio, Bruto, que preferiu a morte à imortalidade.
Quanto mais motivos têm os homens para viver contra a própria vontade, tanto menos se enojam da vida, evidenciando que não acham excessivamente longos os seus dias. Por isso é que são gagos, delirantes, desdentados, encanecidos, calvos, ou, para descrevê-los melhor, com as palavras de Aristófanes, enrugados, corcundas, sem nenhum resto de virilidade. E, não obstante, amam com transporte a vida. Não se limitam esses velhotes insensatos aos prazeres da existência, mas se esforçam ainda por imitar, o quanto podem, a juventude: um enegrece os cabelos brancos; outro esconde com uma cabeleira a cabeça calva; outro põe dentes tomados de empréstimo de algum porco; outro se apaixona loucamente por uma moça e faz por ela loucuras que envergonhariam um rapazinho.
Estamos tão habituados a ver um homem todo curvado ao peso dos anos e que já não enxerga a terra em que está para descer, aqueles cadáveres semivivos que parecem ter saído do Érebo e já estão fedendo à carniça, ainda sentem arder o coração. Lascivas como cadelas no cio, só respiram uma porca sensualidade e dizem descaradamente que sem volúpia a vida não vale nada. Essas velhas cabras ainda fazem o amor e, quando encontram algum Faão, costumam remunerar generosamente a repugnância que causam. Então, mais do que nunca, se esmeram na pintura do rosto, passam a vida diante do espelho, arrancam fios brancos de barba, ostentam dois seios flácidos e enrugados, cantam com voz rouquenha e hesitante para despertar a lânguida concupiscência, bebem à grande, intrometem-se nas danças das moças, escrevem cartas amorosas. Enquanto isso, a sociedade exclama: — Que velhas malucas! Que velhas malucas! — Mas, se a sociedade tem razão, elas se riem e, imersas nos prazeres, aproveitam a felicidade.
Dizer-me o que será mais estúpido: viver alegre e satisfeito, ou eternamente desesperado até se enforcar com uma corda. Poderão dizer-me que é uma verdadeira infâmia a vida desses velhos e dessas velhas?
Eu é que espero para minha velhice assim, amar eternamente, usufruir daquilo que é bom, ate perder o ar, ignorar os fios brancos? Sim, mais é claro, isso são apenas sinais que a velhice esta perto, fios brancos, seios flácidos, voz rouquenha, desdentada, gaga, delirante, não me impediram de viver loucamente esta vida de aventura.

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